Textos


Malandro de carteirinha

            Depois de alguns meses, mais exatamente, dois, encontrei-o, como era de costume, na calçada da esquina do pecado. Com uma sacola de plástico na mão, cheia de papéis: santinhos, folhetos de empresas diversas, propagandas, convites e jornais. Desta vez os fios de cabelos brancos teimavam sobressair; a crise afetou sua cota mensal da loção capilar progressiva, Camélia do Brasil. No entanto, os colares de inúmeras voltas e significados pendiam no pescoço. Corpo fechado.
            ̶ Aê, beleza? Como vai Curitiba? – sempre achou que eu era de Curitiba ou, o fazia por gozação. Sei lá!
            ̶ Brasília tá pegando fogo! A outra perdeu a linha, tá pra cair. Mais de mil funcionários públicos vão pedir aposentadoria. A oposição é mó peidão! – disse arregalando os olhos por cima das lentes marrons dos seus óculos.
            ̶ Coé, irmão, tá maluco?! Que bafafá é esse? – o dono do boteco perguntou.
            ̶ Só o samba que não morre! A Praça Onze se foi; mas o samba não cai; a não ser na Sapucai para deslumbrar. – Eis o carnavalesco de tradição e carteirinha. Fazia questão de mostrar o leque de salvo-condutos para ingresso nas comunidades e barracões das escolas de samba do Rio. Muitos anos trabalhando como compositor de letras para carnavais na cidade maravilhosa.
            ̶ Tô é ficando bolado com essa história da minha mulher, a Lindaura, querer sair na comissão de frente, o próximo carnaval! – disse em voz alta, para todo mundo escutar.
            ̶ Uê, mermão, e dai? Irado. Deixa sair. Boa bisca deve ser; gosta de samba e carnaval. – entra no papo um pela-saco.
            ̶ Se liga, meu chapa! Minha mulher, de noventa anos, quer sair na comissão de frente de biquíni, sem a parte de cima. Vai ser um espanto geral! Dá pra encarar essa?!
            ̶ Basta a Bethânia, que com oitenta e poucos anos, ainda sobe o morro da Mangueira. Tadinha, só cabelão esbranquiçado; o resto é pele e osso; sem esquecer-se do nariz, é claro. – complementou. – Mas ela é poderosa! Quando entrou e caminhou pelas ladeiras da comunidade, até uma porrada de cachorro fez reverência. Proteção total. Não é mole não! Não é qualquer bagulho.
            Nesse momento ele finge que toca/vibra o celular. Pega o aparelho e atende:
            ̶ Fala! Tô numa reunião em Brasília. – essa Brasília, na realidade, era a esquina das primas. – Três mil reais?! De novo Pitucha?! Semana passada coloquei na tua mão cinco mil pratas para umas comprinhas e, tu me aparecestes com apenas uma bolsa? Tô ficando cabreiro. Desse jeito vamos ter que cortar tua bolsa em picadinho para comer durante o mês. – já alterado, completou: - Pitucha, eu sou teu amante, não teu marido, porra! – desligou o celular.
            ̶ Ih, alá! O cara da fuzarca de novo no pedaço, com sua trouxa de bugigangas. Mora no cafundó do judas, maiô fuleiro, gosta de um bafafá e ainda acha que tem borogodó? Melhor dar o pé.
            ̶ Bora. A gente se fala. – desapareceu.
 

(Publicado na Revista Literária Varal do Brasil. Genebra, Suíça, julho de 2016 - Ano 7 - Edição nº 42, p.76)
Gabriel Joerke
Enviado por Gabriel Joerke em 09/07/2016
Alterado em 09/07/2016
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (http:www:gabrieljoerke.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários