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O DIA EM QUE D.SANTINHA ENGOLIU UMA VITROLA
 
          Não, não eram gotículas. Eram gotas corpulentas de chuva, chuva de fim de outono, as quais molham em questão de um pestanejar. De supetão, toda esbaforida, D. Santinha fecha o guarda-chuva, sem antes dar umas sacudidelas e, o apoia na quina da poltrona vacante da recepção, do posto de saúde do bairro. Embora sem emitir nenhum comentário, a priori, todos se voltam para ela, olhando-a de cima para baixo.
          Ainda no afã de se recompor e, com um sorriso amarelo, a recém-chegada tenta dissipar a primeira impressão:
          ̶ Boas tardes. Parece que roubaram a chave de São Pedro e abriram todas as portas de lá de cima – disse sacudindo os sapatos encharcados.
          Logo, voltando-se para a secretária do médico, enquanto arrumava os cabelos lisos e ralos amarrando-os com grampos, em formato de rosca, na parte posterior da cabeça, indagou:
          ̶ Quantas pessoas têm na minha frente, querida? – A secretária – que estava ao telefone – limitou-se a levantar uma das mãos e movimentar os dedos, em vai-e-vem, fazendo-lhe notar que, cinco estariam à sua frente.
          Ajeitou-se na poltrona, imaginando o chá de cadeira. Suspirou fundo, abriu sua bolsa, enfiou a mão e começou a remexer; buscava algo. Na primeira tentativa saiu um cancioneiro; parecia de cantos religiosos, mas não era; tratava-se de músicas de moda de viola. Remexeu e pegou a carteira; conferiu se estava a carteirinha de assistência médica, sua identidade e alguns trocados para o caldo de cana após a consulta. Quando ia fechá-la, deparou-se com a fotografia do sobrinho e afilhado:
          ̶ Nossa! Quanto tempo que não te vejo! Só você mesmo para se lembrar desta sua tia e madrinha – pensou consigo mesma, passando o dedo indicador da mão direita, sobre a foto do sobrinho. Passaram-se já treze anos sem vê-lo. Enfim.
          Quando ia fechar a bolsa, eis que toca o celular. Remexeu rapidamente o interior da bolsa, com estampa de onça, e não encontrava o aparelho que teimava em soar, parte da música: “... essa casa tem goteira, pinga ni mim, pinga ni mim...”.
          ̶ Alô, alô. Quem fala? Aqui é D. Santinha. – ajeitando-se na poltrona, já sentindo os pés molhados da chuva.
          ̶ Quero falar com D. Santinha. – uma voz masculina, pede.
          ̶ Hum... Acho que estou reconhecendo essa voz – fez um silêncio rápido, na tentativa de recordar o dono. – Ah! Já sei quem é: meu estimado sobrinho e afilhado Bilô. Que prazer em te escutar meu menino. Antes de qualquer coisa, quero te agradecer pelo dim-dim que você me mandou no Natal; com ele pude comprar este celular e, de agora em diante, sempre poderemos nos falar.
          ̶ D. Santinha, quero dizer...
          ̶ Ah, meu filho. Não diga nada. Sou eu que tenho que dizer, melhor dizendo, agradecer. Saiba que eu, desde que teu pai te deu aquela surra com pau de goiabeira e te enxotou de casa, nunca te esqueci nas minhas orações diárias; principalmente nas novenas de São João, para que você consiga uma moça honesta, do lar e recatada, para casar.
          ̶ Um momento, D. Santinha...
          ̶ Quanta alegria meu querido! Estava esperando tanto seu telefonema! Tanta coisa aconteceu de lá pra cá; tanta coisa pra te contar – ajustando-se melhor na poltrona e abrindo um largo sorriso, D. Santinha, não deixava seu interlocutor completar a fala inicial.
          ̶ Mas... olhe, na verdade... – a voz masculina tentava se expressar.
          ̶ Agora podemos falar bastante. Eu continuo a mesma; quer dizer, quase a mesma, né? O melhor de tudo é que não engordei, como  tantas ai que chegam a uma certa idade, estão cheias de pneus de tão gordas. Uma leve tosse que, de quando em vez me assoma; ai apelo para o xarope de Grindelia. Fora isso, acho que São Judas Tadeu me livrou de grandes males.
          ̶ D. Santinha, quero falar com a senhora...
          ̶ Ué?! Já estamos falando. Esses jovens de hoje são tão apressados! Querido, lembre-se que paciência e caldo de galinha, nunca fizeram mal a ninguém, viu? Como te dizia, não é que esteja conservada em formol ou coisa parecida, mas, como diz o borracheiro da esquina, ainda tenho as pernas torneadas, do tempo de mocinha. Ah! ah! ah! Você acredita que sinto arrepios só de lembrar?!   
          ̶ Ufa! D. Santinha, a senhora poderia me escutar por um momento, por favor?
          ̶ Pare de me chamar de D. Santinha! Eu sou sua tia e madrinha de batismo – D. Santinha, afoita na fala, cortava o interlocutor. – Vou te colocar a par das novidades de cá. A começar pelo teu pai; embora seja meu irmão, mas, a bem da verdade, sempre foi rabugento; agora piorou. O médico dele disse que, ele tá com problema lá nas partes baixas e, precisa operar. Depois que operar, falou que vai melhorar, pelo menos, a incontinência urinária; a outra parte, não vai ter jeito, é caso de bananeira que já deu cacho. – D. Santinha tentou falar baixo no recinto, virando-se de lado, sem muito sucesso.
          ̶ Que cacho e bananeira, D. Santinha? – o interlocutor, já aflito, perguntou.
          ̶ He! He! He! Você sabe o que é. Mesmo porque, aqui não dá para entrar em detalhes. Seguindo a conversa, tua mãe, como sempre, uma santa mulher; se não fosse o problema dos olhos, o resto daria pra levar. Ela se queixa da vista turva; enxerga pouco. Como disse a senhora aqui do lado, é glaucoma. Ainda bem que o lombriguento do teu irmão sempre está por perto. Falando dele, continua magricelo. E olha que cansei de fazer o chá de Estragão para ele beber por três semanas, durante o verão. Fora a emulsão de Scott a base de óleo de fígado de bacalhão, para ver se criava um pouco de carnes. Oh, dó dele! Tadinho, vivia com dores de barriga, diarreia e, o pior, com comichão no fiofó.
          ̶ Alô D. Santinha... na verdade... quero dizer...
          ̶ Que pressa é essa?! Você, pelo que sei, demorou nove meses para nascer! Seguindo nosso papo, lembra da Dodó? Pois é, agora disque tá com essa doença que se esquece das coisas e das pessoas. Obrigado. A mulher, aqui do lado disse que se chama Alzeimer. Se fosse só isso o problema daria pra levar. O pior é que, com essa de esquecer tudo, como água nas costas de pato, a cada semana quer novo marido. Pois acredite, ela encontra. Acho que é péssima influência do programa de televisão da tarde: “Casos de família”.  He! He! He! Bom, espero que não esteja te cansando com as novidades. 
          ̶ Er... Ahn! D. Santinha, me escute... quero dizer...
          ̶ Olha, apesar de eu ser um túmulo fechado, vou te contar o que aconteceu com a Soraia. Não sei se você se lembra dela? Acho que não. Então, apesar de estar nas casas do enta, ela sempre quis aparentar menos. Era creme pra cá, dietas pra lá; a cada mês uma cor diferente nos cabelos; a cada semana uma cor de esmalte. Até a plástica da vovó, que sai na propaganda do programa da televisão, ela comprou. Não adiantou, no fim, murchava como um maracujá. Cansada de tudo isso, um belo dia conheceu um caminhoneiro e se mandou; nunca mais voltou, nem deu notícias.
          ̶ D. Santinha, por favor, me escute... – D. Santinha não dava o turno; parecia que tinha engolido uma vitrola.
          ̶ Não fique acanhado meu querido sobrinho. Eu te perdoo por tua impaciência. Mesmo assim, eu sou toda ouvidos. Mas, continuando, apesar de não faltar às missas, nunca perdoei a Bel. Sempre foi meu desafeto. Mas, a vida lhe deu o troco. A metida e magricela da filha dela, da noite para o dia, apareceu embuchada; parecia que tinha engolido uma jaca. Ninguém soube de quem o filho é. Vai ver que é do boto do ribeirão do Lipa.
          ̶ Por favor, D. Santinha...
          ̶ Acho que já vai ser minha vez de consultar. Mas, dá pra te contar do Genésio, o pedreiro. Aquele que fez a meia-água da vizinha. O povo fala que levou chifre da mulher. Ela fazia dele gato e sapato. Ainda por cima, fez com que ele reformasse a casa e colocasse uma banheira das modernas, no quarto dela. Coitado do Genésio. Até colocou interlace para cobrir a careca e reconquistar a mulher; ficou pior do que a peruca do Coronel Saruê, após uma ressaca brava, do porre tomado na Casa de Tolerância. No fim, levou um chute no traseiro.
          ̶ D. Santiiiiiiinha!!!
          ̶ Calma! Já tô terminando. Não poderia deixar de te contar da Juju. Metida a beata, anda de asas quebradas pelo padre da paróquia. E este, exagerado e guloso como é, se perde nos quitutes dela.
          ̶ Paaaare!!! D. Santinha!!!
          ̶ Nossa. O que eu fiz? Porque essa gritaria? Estou te colocando a par das novidades de cá. Somente isso. E olha que sou um túmulo fechado!
          ̶ E a senhora acha pouco, todas essas sandices?! – conseguiu completar a voz masculina, do outro lado da linha.
          ̶ Er... ahn! Quem tá falando? – por fim, D. Santinha, desconfiada, se propõe a escutar.
          ̶ Sou eu D. Santinha, o padre Belarmino, da sua paróquia e, não, seu sobrinho!  Minhas orelhas estão vermelhas de tanto escutá-la. Parece que engoliu uma vitrola! Liguei para dizer-lhe que não será necessário comprar as velas para a novena de Santo Expedito, a D. Jujú, a quem a senhora se referiu, já providenciou. Quando a senhora aparecer na igreja, vá primeiro ao confessionário e, prepare-se para a penitência. Eu, por minha parte, terei muito a pedir a Santo Expedito. Tenho dito!

          ̶ Ai de mim! – foi a última coisa que D. Santinha exclamou, após jogar o celular dentro da bolsa e entrar no consultório.

[Publicado na Antologia de Prosadores e Poetas Contemporâneos, p.25-29; Editora Porto de Lenha; Outubro de 2016]
 
Gabriel Joerke
Enviado por Gabriel Joerke em 16/12/2016
Alterado em 16/12/2016
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